Na casa do meu Pai há muitas moradas

 

“Aquele que vê todos os seres no seu próprio Eu e o seu próprio Eu em todos os seres alcança a sabedoria.”

Upanixad (Isa)

 

Num primeiro relance, somos tentados a olhar para estas fotografias como recriações de paisagens atmosféricas - céus pesados de nuvens, desenhando abstracções no espaço. Em alguns casos, as imagens sugerem a existência de um limbo entre o céu e a terra, territórios sobrepostos que se diferenciam apenas pela densidade e grau da turbulência atmosférica.

Mas elas são também o resultado visível de um aturado caminho de aprendizagem e aperfeiçoamento interiores, de que cada imagem é o espelho possível; são à sua maneira exercícios espirituais, imagens que imobilizam instantes espirituais, na sua tentativa sempre retomada de religar o humano com as realidades superiores do espírito.

Nesta brevíssima tentativa para entrar em diálogo com estes trabalhos recentes de Carlota Mantero, gostaria de enfatizar dois aspectos que me parecem centrais, nomeadamente, a interioridade orante dos ambientes atmosféricos, diáfanos, escatológicos (?) retratados e a utilização das técnicas da fotografia digital como meio para alcançar uma qualidade plástica em tudo diferente da função representativa que é comum associarmos à fotografia.

O que aqui vemos são fotografias, mas também são pintura, são desenho, são todas essas disciplinas artísticas reunidas numa única imagem que cristaliza instantes… ou, citando Rui Chafes, no seu livro “Entre o Céu e a Terra”: “Não é a escultura, o desenho, a pintura, a fotografia…é a alma. A arte é o duro trabalho da nossa alma (…) ”.

O modo construtivo minucioso de ocultação e revelação dos elementos eventualmente referenciáveis, os apagamentos sucessivos a que a imagem original vai sendo sujeita, conduzem-nos até uma abstracta sensação mística que, por seu turno, reproduz o caldo espiritual em que a artista se encontra imersa. Neste estado de exigente comprometimento interior, a imagem adquire a sua identidade em completa liberdade, desprovida que está de todo o acessório, à maneira do que afirmou o Mestre Saint Germain, quando escreveu: ”Deixai o meu Raio cobrir-vos com a sua Luz, vós sois livres, livres, livres! Aceitai o meu amor, aceitai o meu poder, aceitai a minha presença. Que a Glória Celeste seja a vossa partilha! Que a Luz Cósmica seja a vossa morada! Vós sois UM comigo! Vós sois EU!” *

 

* Atribuído ao Mestre Saint Germain

 

José Sousa Machado

Novembro 2014

 

In my Father´s house there are many homes

 

“The one who sees all beings in his very self and who sees himself in all beings reaches wisdom.”

Isa Upanishad

At first sight we are tempted to look at these photos as re-creations of some atmospheric sceneries- skies laden with clouds drawing abstractions in space.

In some cases, the images suggest the existence of a limbo between heaven and earth, overlaying territories which are different only because of the density and the degree of atmospheric turbulence.

But they are also the visible result of a thorough apprenticeship as well as of an inner betterment, of which each image is the possible mirror; they are also in their own way spiritual exercises, images which freeze some spiritual moments, in their trying to re-connect the human with the spirit´s higher realities.

In this very short attempt to enter in a dialogue with these recent works by Carlota Mantero, I would like to stress two aspects which seem central, namely the inner prayer like character of the atmospheres, diaphanous, scatological (?) portrayed and the using of the digital photography techniques as a means to reach a plastic quality altogether different from the representational function which we commonly associate with photography.

What we see here are photos, but they are also paintings, drawings. They are all those artistic disciplines combined into a single image which crystallizes some instants… or, quoting Rui Chafes, in his book “ Between Heaven and Earth”: “ It is not sculpture, drawing, painting, photography…it is soul”.

The carefully constructed mode of occultation and revelation of the elements eventually recognizable, the successive effacing to which the original image is being subjected, lead us into a mystical abstract sensation, which in its turn reveals the spiritual cauldron in which the artist is immersed.

In this state of an inner demanding commitment, the image acquires its identity in complete freedom, for it is completely devoid of any accessory in a manner similar to what is said by the Master Saint Germain: ” Let my Ray cover you with its Light, you are free , free, free! Accept my love, accept my power, Accept my presence. May you share the heavenly Glory!  May the Cosmic Light be your abode! You are One with me! You are what I Am (*)

 

José Sousa Machado

November 2014

 

* Attributed to the Master Saint Germain     _ Na casa de meu Pai, puseste como título: